30 de abril de 2009

Com(partindo)

. Mateus há tempos desejava uma escrivaninha, cerceada de nuances um tanto complicadas na compatibilização com nosso orçamento de uma incipente vida em comum. Para tudo ele se deleita em esmiuçados planejamentos; tendo o Excel como melhor amigo, estabelece pesquisas, alicerça possibilidades, anota infindáveis métricas e hipóteses. (Eu entraria na primeira lojinha e já me encantaria com a primeira possibilidade). Ele compasso, eu rompante.

Então ela chega, ocupa o lugar da poltrona, desordena meus livros e causa um efeito dominó que vai se estendendo por todo o apê. Inquieta minhas disposições padronizadas. Me convoca a mudar a posição no sofá, a alterar o ângulo da luz, a reposicionar aqueles pequeninos vasos que (então lembrei) havia comprado em um final de tarde do inverno passado - um dia em que saí da Clínica decidida a juntar minha escova de dentes, entrei num 1,99 da Protásio e marquei simbolicamente o primeiro objeto de um então futuro ainda inexistente.

E brindei o desassossegar de mim.

. Deste lugar de escuta:

“(...) a tal ponto que se pode dizer que, onde há espera, há transferência: dependo de uma presença que se divide e demora até me prestar atenção – como se se tratasse de fazer morrer o meu desejo, de abandonar a minha necessidade. Fazer esperar: prerrogativa constante de quem tudo pode, ‘passatempo milenário da humanidade”. (Roland Barthes - A espera)

20 de abril de 2009


Novembro ou Um vazio em seis notas
I. Seria um dia como outro qualquer - mesmas vozes, mesmos passos, mesmo cheiro-náusea da manhã. Entretanto, fulgurava uma crônica anunciada. Fez-se pó. Fez-se tanto.
II. Na janela: beija-flores, beija-dores, beija-amores.

III. Sabia de antemão não poder lembrar deste caminho, num repente as ruas tornar-se-iam estrangeiras: haveria um tempo íntimo a entrecortar todos os alhures, de uma lentidão resignada, de uma dor sem dono, oca e pálida e insone.

IV. Some.

V. Já não; e o olhar no espelho arde, apalpa a falta como quem amassa o pão, trama o grito, acalenta os possíveis nomes de uma história que contará no futuro, quiçá um dia.

VI. Um nome.




3 de abril de 2009


INFINITIVOS

Uma lembrança

A vertigem; os dois mundos; a casa das margaridas.

Uma escuta

Somos o invivido.

Um afago

A espera.

Um embaraço

A ordem convoca o olhar?

29 de março de 2009

Disto

Foi surdina de novo, retumbante. Re-tombante. Foi preciso o assombro do velho, o peso doído do mesmo, o sacolejar, o enternecer das ranhuras-meninas - bem ali, assustadas a seu canto.
Quis falar-te tão logo que nunca possível.
Pensei nos vestígios ínfimos, íntimos, ainda pulsantes. No afago de encontrar-me justo nesta multidão de cores e gritos e vazios.
Estive desértica.
Efêmera.
Estive no alívio do que não sobra.
Tramo um conto de subtítulos, apenas. A tentar receber as intensidades outras: de um pouco que vibre, que permita ao olhar tal deleite. Quero fechar os olhos. Quero (des)imaginar.

Insisto meu silêncio em teu afã de infinitos.

22 de janeiro de 2009

Do que segue

Há dias ensejo um escrito. Vejo meu blog já empoeirado de letras passadas; mas, destas frestas aqui, fiquei a regozijar-me do que vai envelhecendo de mim.

Deixo-me passar, também, ainda. Porque é de um lugar outro que vos falo. Neste intervalo, outrei-me como há muito tempo não o fazia.

Há dias quero pintar esta página branca com algumas letras que contornem minimamente as intensidades com as quais vou me encontrando. Batemos um papo, tomamos um café.

E de tantas oportunidades sensatas, quiseram sair estas linhas em uma quinta-feira ensolarada, neste cedinho da manhã, em que chego mais cedo ao consultório e fico a organizar todas as coisas, talvez tentando organizar-me junto. As histórias fora da ordem.

É palavra-alívio, feita de uma feliz exaustão.

E então, sigo o baile.

20 de dezembro de 2008

Elucubrações em fá menor

E é como se pudesse estar outra vez em cada traço conversa sombra muda. Do sem-palavra, dedilho lágrimas desencontradas.
Copiosa e o cálice, avariada e o grito, falto foto tempo sopro.
Falto-me, falto-te-, faltamo-nos.
Eu e o tempo, que desatinado encontro, que melancólico encontro de quadros fora de lugar, um obrar em suaves acordes de um primeiro movimento incessante.
Espalho-me em riscos imagens rubores. É de uma nostalgia viva como o discreto ventilar das persianas, de um sopro íntimo como o espelho
do avesso.
Nós, outros. Eu, lá em tanto, em fins e nós em
tantos.
Toca-me, toco-te, tocamo-nos.
Da revelia oca, (des)ato.
Pinto-me. São impostergáveis nuances-cortes-gotas, antecipo as marcas, cheiro outra vez o descompasso desta hiância, quis agarrar daquele ensejo um segundo tão breve que pronto.
Que é de um não cansar. Não
entrar.
Que é arquitetada por insana recorrência de linhas fugitivas.
Tão minha como nada.
Tão nada como pudera.
Tão ponte como sensata.
Tão ata como dissera.
Tão fome como
Palco.