8 de julho de 2007


Sobre alergias e relações


Ele mandava rosas amarelas, todas as sextas-feiras, com um cartão de papel reciclado de toque enrugado. Ela não sabia como lhe contar, depois de tantos meses, que afinal de contas era alérgica a estes seres inanimados. Alérgica biologicamente e alérgica de todos os modos possíveis: além de incontáveis espirros, as flores despertavam profunda e incomensurável ansiedade. Se contasse, ponderava, cada pétala que ele, gentilmente, lhe presenteara como num ritual, ao cabo de tanto tempo, simplesmente ficariam pra sempre marcadas como um presente que provocava desagrado. Isso, com peso retroativo, pensava, poderia ser fatal à relação. Mas ele não sabe como lhe custa colocar aquelas flores no vaso, ainda de pijama, todos os sábados pela manhã - com um sorriso (também) amarelo. Como lhe custa cruzar com elas a cada ida ao banheiro e perceber que seus espinhos estão tornando menos nítida a vista pela janela justo quando se deita ali no cantinho do sofá, seu lugar cativo dentro daquilo que ainda chamava de sua casa.
Foi tomada de um desatino cheio de rubor. Sim, definitivamente ela ia contar. E ainda amanhã, cedíssimo, antes que se abrissem as primeiras floriculturas. Não podia lhe negar o direito de dobrar com o olhar a esquina.

18 de junho de 2007



Uma manhã

Desse silêncio matinal ela precisava, enquanto as primeiras folhas caíam como um sussurro ao chão. O vento que acariciava os móveis, que entrava pelas frestas sem nome, que resmungava em seus ouvidos. O café queimado, justo o aroma da noite passada: ela corre, intempestivamente, atrás do açucareiro.

14 de junho de 2007

É difícil, escrevo com lágrimas nos olhos e nas mãos, o coração dilacerado e doendo. Este escrito é em branco em preto, assim mesmo, cru.

Eu acredito. Eu sempre acredito. Eu vou acreditar sempre.

O tricolor é imortal, e nunca duvidaremos dele. Essa história não vai ficar assim, cheia de desprezo e risível. Aqui no Monumental quem canta somos nós.

Eu amo esse time por me proporcionar, mais uma vez, estar numa final da América. Não pegamos barbadas, com a gente a coisa é feia mesmo.

E quem sabe? Futebol são 11 contra 11 e quatro linhas. E, neste caso, ainda faltam 90 minutos. É o choro da esperança.

8 de junho de 2007


Coração em pedaços

E, pois, estamos na finalíssima. E contra o Boca. O Imortal Tricolor superou uma a uma as pedreiras que encontrou em seu caminho, todas dignas de uma final: São Paulo, Defensor, Santos... E agora La Bombonera pela frente. Meu coração já não sabe se agüenta. O Tri da América a apenas dois jogos. O Grêmio ainda me mata - como diria Vinícius de Moraes: "Hei de morrer de amar, mais do que pude".


"Grêmio: nunca duvide dele"
O sentimento não se termina...

4 de junho de 2007

Não adianta tentar parar de pensar. O jogo de quarta-feira não sai da minha cabeça. Quando, há dois anos atrás, na árdua batalha dos emaranhados jogos da divisão-segunda, eu poderia imaginar estar hoje prestes a ver meu Imortal Tricolor na final de mais uma Libertadores da América? Que eu poderia gritar, quem sabe, "TRI-CAMPEÃO"?

Eu acredito na profecia da senhora que trabalha pro Manoel que, num momento então de total insanidade, naquela época, afirmou que o Grêmio seria Campeão do Mundo em 2007. Eu preciso acreditar, ainda que o jogo de quarta não dê certo. Se não for isso, outra coisa. O gremista é movido a esperança, suor, lágrimas e sorrisos. É imortal, é guerreiro, não há time com tamanha raça e vontade. Não precisamos de estrelas: temos um TIME. E eu amo esse time.

Cada batalha do Monumental é regida a gritos, abraços, choro. Setor A1, um pouco à direita, ali no mesmo lugar onde sempre nos postamos, já fazendo amigos nos arredores. Eu gosto do concreto da arquibancada, de pular e sentir o chão tremendo, de sentir a vibração de um desejo coletivo: vamos, Grêmio, vamos!!!

Hoje, tengo ganas de escrever. Ganhando ou não do Santos, a vontade deste escrito precisava ter seu lugar. Se passar, muito amarei o Grêmio - se não passar, há um amanhã onde o amarei muito mais. Com o Grêmio onde o Grêmio estiver. Sempre.

Sinto o cheirinho de vitória de novo, e só isso já é bom demais! "Nada mais apaga essa história / Grêmio Imortal / ..."

E que o futuro tricolor seja, afinal, repleto de reticências e infinitos.

3 de junho de 2007

Das margaridas.


É o cotidiano do mesmo, do frio, das árvores ventosas. Tem sabor de mel e cheiro de eucalipto: narrativas de praça, palas, andanças e risos abafados. É bem ali, história que passa, já minha, já ida, sussurrando um mosaico de lembranças, aquecendo com nós de pinho.

Engraçado é que sigo os nós, dos frios tramados da lã, das cordas de pular. Os nós outrora dos cabelos, depois das incertezas.

As cores mudam, o tijolo é o mesmo - e um mesmo suspiro atravessa o corpo. Hoje é mais ligeiro meu passo, mas dou por conta que são as mesmas calçadas a abrigarem meus trajetos.

Eu queria de novo, e só para mim, um jardim abarrotado de margaridas.